O crime organizado nem sempre é como nós imaginamos. Ele não se esconde apenas em becos e salas cheias de fumaça. Ele ocorre em servidores em nuvem, mensagens criptografadas e planilhas. Ele opera em diferentes continentes; muitas vezes, com a velocidade e a estrutura de uma multinacional.

O crime organizado da atualidade é um negócio estruturado e em expansão que opera entre fronteiras e que explora pessoas, dados e confiança. E, dados os avanços em tecnologia, ele está crescendo rapidamente.

Um mercado criminoso à altura dos mercados legítimos

O crime organizado é um dos setores mais lucrativos do planeta. É um negócio em proliferação e sem fronteiras que se iguala às economias legítimas em escala, velocidade e sofisticação.

O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) estima que dois a três trilhões em dinheiro ilícito passam pelo sistema financeiro global todos os anos, e isso corresponde a quase 3% do PIB global. Segundo a INTERPOL, um só grupo criminoso internacional pode ganhar até US$ 50 bilhões anualmente, igualando-se ao PIB da 10ª maior economia do mundo.

Em toda a Europa, o EU-SOCTA 2025 alerta que as redes criminosas estão sendo “cultivadas on-line e aceleradas pela IA”, e mais de 70% delas hoje utilizam estruturas empresariais legítimas para ocultar atividades ilícitas.

Na região Ásia-Pacífico, o UNODC documenta uma economia de fraude de escala industrial: hoje, fábricas de golpes, funcionários traficados, automação por IA e lavagem de criptomoeda são comuns.

O crime organizado não é mais clandestino, ele é uma empresa. Atualmente, as redes espelham as multinacionais: portfólios diversificados, terceirização de mão de obra e exploração da infraestrutura digital para crescer mais rapidamente que os sistemas desenvolvidos para impedi-las.

De complexos de golpes a vítimas locais

Hoje, o crime organizado se movimenta como uma multinacional, em que os líderes recrutam internacionalmente, crescem por meio de ferramentas digitais e exploram pessoas como parte de seu modelo de negócios.

Todos os anos, dezenas de milhões de pessoas são vítimas do tráfico de pessoas, de acordo com entidades de representação que monitoram o problema. Grande parte dessas pessoas são traficadas para complexos de golpes, onde são forçadas a defraudar estranhos on-line, especificamente, no Sudeste Asiático. A INTERPOL dá a isso o nome de “ameaça dupla”, com dois conjuntos de vítimas: as que são coagidas a cometer crimes e as que são alvo desses crimes. Incursões policiais em Mianmar, Camboja e Tailândia libertaram funcionários presos em fábricas de fraudes digitais que imitavam escritórios corporativos, incluindo até mesmo cotas e metas de desempenho.

O Channel News Asia  revelou como complexos de golpes operam como empresas de tecnologia. Os funcionários (muitos deles traficados e enganados por falsos anúncios de emprego) são coagidos a realizar golpes amorosos e de investimentos globais. Em uma incursão policial transfronteiriça, autoridades apreenderam 84 computadores, 279 telefones e 150 dispositivos de armazenamento, além de conteúdo deepfake gerado por ferramentas de IA.

No norte da Europa, a Força-Tarefa Operacional GRIMM está confrontando um novo modelo de violência como serviço, em que adolescentes são recrutados on-line para realizar ataques nos Países Nórdicos em troca de pagamento, coordenados por aplicativos criptografados e remunerados por meio de carteiras digitais.

Na América Latina, as redes de crime organizado se parecem com corporações multinacionais. Desde a produção de fentanil no México até portfólios de bens imobiliários no Brasil, grupos integram tráfico de pessoas, fraudes e contrabando em cadeias de suprimentos unificadas.

Na América do Norte, a segurança pública enfrenta os efeitos subsequentes: golpes amorosos on-line, fraudes de investimento em criptomoeda e lavagem de dinheiro com identidades sintéticas. O Departamento do Tesouro dos EUA emitiu alertas sobre golpes “pig-butchering”, em que as vítimas são manipuladas emocionalmente para investir em ativos falsos de criptomoeda ou outra oportunidade de investimento e, depois, defraudadas.

De trabalho forçado em complexos de golpes a mercenários digitais, o crime organizado atualmente lida com dados, logística e automação: um ecossistema de exploração que prospera nos espaços entre as leis, fronteiras e tecnologias.

IA: o acelerador da criminalidade

As mesmas tecnologias que impulsionam o crescimento legítimo dos negócios globais (computação em nuvem, automação e inteligência artificial) agora estão potencializando o crime organizado.

Exemplos de como a IA empodera o crime:

  • Vídeos deepfake e clones de voz são usados em fraudes e extorsões de alto valor.
  • Identidades sintéticas criadas pela IA para abrir contas, lavar dinheiro
    e contornar a detecção.
  • Campanhas automatizadas de phishing que geram mensagens multilíngues com enorme alcance de vítimas.
  • Redes de lavagem de criptomoeda aceleradas por IA que analisam dados, geram relatórios semelhantes aos bancários e movimentam fundos rapidamente.

O Fórum Econômico Mundial relata que os e-mails mal-intencionados gerados por IA dobraram e que os “agentes de IA” estão aumentando as capacidades de criminosos pouco qualificados. A INTERPOL confirma que a mesma tecnologia está sendo instrumentalizada para explorações e fraudes.

Essas ferramentas tornam os golpes mais rápidos, baratos e convincentes e estão se multiplicando com mais rapidez do que a segurança pública consegue processar evidências manualmente.

Esses avanços ampliam a lacuna de capacidade entre as empresas criminosas e as agências de segurança pública. Os criminosos operam sem restrições legais ou regulatórias, iteram rapidamente e crescem globalmente, muitas vezes da noite para o dia. Enquanto isso, as agências de segurança pública enfrentam restrições orçamentárias, limites de competência e sistemas desatualizados. Se não for resolvida, essa lacuna vai minar a confiança, aumentar o cinismo sobre os sistemas de justiça criminal e permitir que as redes criminosas se infiltrem ainda mais nas comunidades.

O momento de liderança da segurança pública

Para comandantes, delegados e dirigentes de órgãos policiais, a conclusão é perturbadora, mas necessária.
O crime organizado não é algo que acontece apenas lá fora; ele está operando nas nossas comunidades. O desafio não é a ausência de informações; é o fato de que as evidências estão espalhadas por telefones, dispositivos digitais e competências.

Quando as agências de segurança pública começarem a conectar esses pontos de dados entre as divisões, cidades vizinhas ou parceiros regionais, surgirá um novo panorama. O que antes pareciam ser incidentes isolados começam a revelar suspeitos compartilhados, métodos comuns e vítimas que se cruzam. Os casos de fraude serão conectados às redes de tráfico. Os golpes locais serão vinculados a saques internacionais. De repente, o que antes parecia aleatório começará a fazer sentido.

Todas as identidades roubadas, todos os saques transfronteiriços e todas as vítimas coagidas farão parte de uma empresa maior que se adapta com mais rapidez do que a maioria dos sistemas de segurança pública consegue acompanhar.

Quando as agências de segurança pública não veem essas conexões, três coisas acontecem:

  • O povo perde a confiança, porque os golpes parecem irrefreáveis.
  • Os investigadores ficam esgotados perseguindo pistas fragmentadas.
  • Essas redes se infiltram cada vez mais, lavando dinheiro, e se reinserem na sociedade.

Este é o risco percebido por todos os líderes: o silencioso enfraquecimento da segurança, da moral e do controle.

Combatendo o crime como uma empresa

As agências de segurança pública que fazem progresso contra o crime organizado têm algo em comum. Elas lutam contra ele como uma empresa.

  • Elas criam ecossistemas de inteligência digital que transformam dados em ações que podem realizar.
  • Elas trabalham com outras agências e fronteiras, não apenas dentro dos departamentos.
  • Elas medem a velocidade com que se alcança clareza, monitorando a rapidez com que os investigadores conseguem descobrir a primeira pista prática.
  • Elas seguem o dinheiro, de carteiras de criptomoeda a pontos de saque, buscando desestabilizar os lucros ilícitos em vez de se limitarem aos agentes de nível operacional.

Quando hackers globais de caixa eletrônico deixaram rastros em dispositivos e foros, investigadores que usavam soluções Cellebrite conectaram evidências de vários países para identificar e desmantelar a rede, provando como a integração transfronteiriça de dados pode expor até mesmo os crimes financeiros mais sofisticados.

Na América Latina, a mesma tecnologia ajudou a revelar uma rede internacional de tráfico de pessoas que aliciava jovens meninas para serem exploradas em outros países. O que começou como uma só operação de resgate pelo Batalhão de Polícia de Fronteira do Brasil evoluiu para a exposição de uma empresa de armas, drogas e tráfico. Isso mostra como as soluções de investigação digital podem revelar toda a extensão dos ecossistemas de crime organizado ocultos em transações rotineiras.

Quando as agências de segurança pública utilizam evidências digitais e escala, como em iniciativas para desarticular e desmantelar quadrilhas com inteligência digital, as prisões desmantelam operações, protegem vítimas e restauram a segurança das comunidades. As agências podem se manter à frente acessando os dispositivos que usam nas operações, entendendo essas conexões e compartilhando essas informações rapidamente. O policiamento moderno depende de associar dados e compartilhar inteligência para definir todo o panorama mais rapidamente, antes que o crime aumente e que as comunidades paguem o preço.

A conclusão

O crime organizado não é mais uma economia informal. É uma empresa global com escritórios regionais e metas de receita. Ela tem toda uma equipe de pesquisa e desenvolvimento para criar as práticas mais enganosas e eficazes. Suas operações são ágeis, coordenadas e cada vez mais infiltradas nas evidências digitais — ocultas nos dispositivos, dados e plataformas que as pessoas usam todos os dias.

Se os líderes de segurança pública não se adaptarem, a economia do crime continuará se infiltrando na vida diária, em todas as facetas da sociedade: das comunidades rurais às cidades, nas prisões e nos espaços digitais.

Na Cellebrite, nossa missão é ajudar as agências de segurança pública a ver o que os criminosos já veem. Isso significa apresentar as conexões, as redes e os padrões para que as comunidades possam agir mais rapidamente, proteger-se melhor e interromper o enfraquecimento da confiança.

Saiba mais sobre como as agências de segurança pública do mundo todo estão usando evidências digitais para ligar os pontos, desmantelar redes criminosas e proteger as comunidades.


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